
Você entra na cozinha para preparar o almoço de domingo. O feijão está no fogo, o telefone toca, a panela de pressão começa a chiar e alguém pergunta onde ficou a chave do carro. Você atende, baixa o fogo na hora certa e ainda lembra que falta comprar o pão. Quem organiza essa pequena confusão são as suas funções executivas.
O que são funções executivas
Funções executivas são um conjunto de habilidades que o cérebro usa para se organizar e agir com um objetivo. Pense nelas como o gerente da casa: ele não faz todo o serviço, mas decide o que vem primeiro, o que pode esperar e o que precisa mudar.
Essas habilidades estão muito ligadas à parte da frente do cérebro, chamada córtex pré-frontal, que fica logo atrás da testa. É o que descreve a pesquisadora Adele Diamond numa revisão muito citada sobre funções executivas.
Funções executivas x funções cognitivas: qual a diferença?
"Funções cognitivas" é o nome geral para tudo o que a mente faz: lembrar, falar, prestar atenção, perceber o ambiente e raciocinar. As funções executivas são uma parte desse conjunto, a que coordena as demais. Elas ajudam você a cumprir um objetivo, como passar no banco, na farmácia e na feira na mesma manhã sem se perder no roteiro.
Quais são as funções executivas?
Se você pesquisar, vai encontrar listas com 5, 7 ou mais funções executivas. Não existe uma lista oficial com esse número: cada autor organiza de um jeito. O modelo mais usado na pesquisa, proposto por Miyake e colegas em 2000 e retomado por Diamond em 2013, parte de três funções centrais. Delas dependem habilidades mais complexas, como planejar, raciocinar e resolver problemas.
Controle inibitório
Controle inibitório é a capacidade de segurar um impulso ou ignorar uma distração para fazer o que você escolheu. É ele que ajuda você a não responder no calor de uma discussão de família, a esperar a sua vez de falar ou a recusar o segundo pedaço de bolo.
Ele também participa da atenção. Manter o foco na conversa com uma amiga enquanto o celular vibra em cima da mesa é trabalho do controle inibitório.
Memória de trabalho
Memória de trabalho é a capacidade de manter uma informação "na cabeça" por alguns segundos e usá-la. Você a usa quando guarda o número que alguém ditou enquanto digita no celular. Ou quando soma de cabeça o valor das compras no mercado para ver se o dinheiro dá.
Ela é diferente da lembrança de fatos e nomes de muito tempo atrás. Se a sua dúvida é sobre esse outro tipo de falha, vale ler sobre quando o esquecimento merece atenção.
Flexibilidade cognitiva
Flexibilidade cognitiva é a capacidade de mudar de plano e ver um problema por outro ângulo. Ela entra em cena quando o caminho de sempre está fechado por uma obra e você precisa achar outro.
Também é ela que ajuda você a se adaptar a uma regra nova, como quando o banco muda o aplicativo e os botões saem do lugar.
Planejamento e organização (e outras que dependem das três)
Planejamento e organização se apoiam nas três funções centrais. Planejar uma viagem, por exemplo, pede guardar várias informações ao mesmo tempo, deixar de lado o que não cabe no orçamento e ajustar o roteiro quando algo muda.
O mesmo vale para separar os remédios da semana, preparar uma receita com muitas etapas ou resolver um problema com o plano de saúde. O raciocínio e a resolução de problemas fazem parte desse mesmo grupo.
Funções executivas no dia a dia depois dos 50
Na internet, quase tudo sobre o tema fala de crianças, escola e TDAH, mas as funções executivas trabalham a vida inteira. Veja algumas situações em que elas aparecem depois dos 50:
- Pagar contas e boletos em dia, conferindo valores e datas de vencimento.
- Manter a agenda de consultas e exames sem marcar duas coisas no mesmo horário.
- Dirigir no trânsito do Recife, atento ao semáforo, às motos e ao GPS ao mesmo tempo.
- Cozinhar para a família e fazer o arroz, a carne e a salada ficarem prontos juntos.
- Acompanhar uma conversa em grupo sem perder o fio quando várias pessoas falam.
- Aprender a usar um celular novo, o aplicativo do banco ou uma videochamada.
- Voltar a estudar, fazer um curso ou começar um idioma.
- Cuidar dos netos, dividindo a atenção entre a brincadeira, o lanche e a hora do banho.
Em todas essas situações, você planeja, segura distrações, guarda informações por alguns instantes e ajusta o plano. Ou seja: usa as funções executivas o tempo todo, mesmo sem perceber.
O que muda nas funções executivas com a idade
Com o envelhecimento normal, algumas funções executivas ficam mais lentas ou passam a exigir mais esforço. Segundo uma revisão sobre o envelhecimento cognitivo normal, a flexibilidade mental tende a diminuir, sobretudo depois dos 70 anos. Tarefas que pedem dividir a atenção entre várias coisas também ficam mais difíceis. Por outro lado, o vocabulário, os conhecimentos acumulados e o raciocínio sobre assuntos conhecidos tendem a se manter.
A mesma revisão destaca que há grande diferença entre uma pessoa e outra. Duas pessoas de 65 anos podem ter desempenhos bem diferentes nas mesmas tarefas.
Por isso, vale guardar uma ideia: "mais devagar" não é o mesmo que "perder". Talvez você precise de alguns segundos a mais para decidir um caminho ou prefira fazer uma coisa de cada vez. Isso faz parte do envelhecimento e, em geral, convive bem com uma vida ativa e independente.
Alguns fatores podem dificultar essas habilidades no dia a dia. Segundo a revisão de Adele Diamond, as funções executivas estão entre as primeiras a sofrer com estresse, tristeza, solidão, falta de sono e pouco condicionamento físico. Depois dos 50, vale prestar atenção a:
- sono ruim ou insuficiente, associado a pior desempenho executivo depois dos 55 anos;
- estresse e solidão;
- depressão, associada em idosos a mais dificuldade nas funções executivas;
- perda auditiva sem cuidado, ligada a queda mais rápida em testes de funções executivas;
- excesso de tarefas ao mesmo tempo, já que dividir a atenção fica mais difícil com a idade.
Como exercitar as funções executivas
Muita gente quer saber como treinar ou como estimular as funções executivas na vida adulta. A resposta honesta é que a ciência ainda está aprendendo.
O que a ciência diz sobre treino cognitivo
O estudo ACTIVE sorteou 2.832 idosos dos Estados Unidos para diferentes treinos e os acompanhou por dez anos. Os participantes fizeram treinos de memória, de raciocínio ou de velocidade de processamento, que é a rapidez para captar uma informação e responder a ela.
Dez anos depois, quem treinou raciocínio e velocidade ainda tinha melhor desempenho nas habilidades treinadas. Os participantes dos treinos também relataram menos dificuldade nas atividades do dia a dia do que o grupo controle. Já o treino de memória não manteve o efeito sobre a memória.
Ao mesmo tempo, uma revisão Cochrane de 2020, que reuniu estudos de treino cognitivo no computador em pessoas saudáveis, considerou a evidência de baixa qualidade. Os benefícios encontrados foram pequenos, e não está claro se fazem diferença real na vida das pessoas. Na mesma linha, a diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2019 diz que o treino cognitivo pode ser oferecido a idosos com cognição normal ou com comprometimento leve. É uma recomendação condicional, baseada em evidência de qualidade muito baixa a baixa.
O estudo finlandês FINGER seguiu outro caminho. Ele combinou alimentação, exercício físico, treino cognitivo e controle de fatores de risco vasculares, como a pressão alta. Em idosos com maior risco, essa combinação ajudou a manter ou melhorar a cognição, em comparação com o grupo controle.
O recado para você: a pesquisa sugere uma combinação de mente ativa, corpo ativo e convívio. Não existe um exercício mágico isolado.
Ideias para o dia a dia
Experimente incluir na rotina atividades que peçam planejamento, foco e alguma adaptação:
- Aprenda algo novo e um pouco difícil, como um idioma, um instrumento ou um ritmo de dança.
- Jogue com outras pessoas jogos de estratégia, como xadrez, dominó ou baralho.
- Planeje de verdade uma viagem ou o almoço de família: convidados, compras, horários e quem leva o quê.
- Cozinhe uma receita nova seguindo as etapas na ordem.
- Mude a rotina de vez em quando: volte para casa por outro caminho ou use a mão não dominante numa tarefa simples, como mexer o café.
- Faça uma coisa de cada vez, sem tentar resolver tudo ao mesmo tempo.
- Reserve um tempo para a atenção sustentada, como ler um livro ou ouvir um disco inteiro com calma.
O mais importante é que a atividade seja interessante para você e traga algum desafio. Se ficar fácil demais, aumente um pouco a dificuldade.
O que sustenta tudo isso
As funções executivas não dependem só de atividades para a mente. Atividade física, sono de qualidade e convívio social fazem parte da mesma conta. O mesmo vale para cuidar da audição, da visão, da pressão arterial e da depressão.
O relatório de 2024 da Comissão Lancet sobre demência listou 14 fatores de risco modificáveis. Segundo a estimativa populacional da Comissão, cerca de 45% dos casos de demência estão ligados a esses fatores e poderiam ser prevenidos ou adiados, em teoria. É uma estimativa para a população como um todo, e não uma promessa para cada pessoa. O relatório reforça que vale ser ativo cognitivamente, fisicamente e socialmente na meia-idade e depois dela.
Procure um médico se...
Algumas mudanças merecem avaliação. Procure um médico se:
- você (ou seu pai ou sua mãe) passou a ter dificuldade nova para organizar contas, remédios ou compromissos que antes fazia bem;
- tomou decisões arriscadas ou fora do seu jeito, como gastos inesperados ou golpes financeiros em que antes não cairia;
- tem dificuldade nova para seguir uma receita ou uma tarefa com várias etapas;
- notou mudança de personalidade, impulsividade ou apatia, que é a falta de interesse e de iniciativa para coisas de que gostava;
- a dificuldade veio junto com esquecimento frequente, tristeza persistente ou sono ruim. Nesse caso, leia também sobre o que é esquecimento normal e quando se preocupar.
Urgência: se a confusão começou de repente, junto com alteração na fala, fraqueza em um lado do corpo ou dor de cabeça forte, ligue imediatamente para o 192 (SAMU). Esses podem ser sinais de alerta de AVC.
Um clínico geral pode começar essa avaliação e, se necessário, encaminhar a um neurologista, geriatra ou psiquiatra, como recomenda a Academia Brasileira de Neurologia. Quando necessário, o médico pede uma avaliação neuropsicológica, que examina em detalhe a memória, a atenção e as funções executivas.
Onde a Métis entra
A Métis Academia da Mente é um espaço de estímulo cognitivo para adultos nas Graças, em Recife, criado por neurologistas. O encontro é semanal, dura 2h30 e passa por um circuito de quatro salas: Linguagem, Memória, Funções Executivas e Contemplação, em grupos de até 6 pessoas. Na Sala das Funções Executivas, as atividades trabalham atenção, planejamento e resolução de problemas, junto com o convívio em grupo. É estímulo cognitivo, não tratamento, e não substitui a avaliação médica. Você pode conhecer como funciona o circuito e o treino cognitivo nas Graças, em Recife. Se quiser ver de perto, venha para uma aula experimental gratuita.