Funções executivas

    Funções executivas: o que são e como exercitá-las depois dos 50

    Homem de cerca de 60 anos planejando uma viagem à mesa, com caderno, mapa e celular

    Você entra na cozinha para preparar o almoço de domingo. O feijão está no fogo, o telefone toca, a panela de pressão começa a chiar e alguém pergunta onde ficou a chave do carro. Você atende, baixa o fogo na hora certa e ainda lembra que falta comprar o pão. Quem organiza essa pequena confusão são as suas funções executivas.

    O que são funções executivas

    Funções executivas são um conjunto de habilidades que o cérebro usa para se organizar e agir com um objetivo. Pense nelas como o gerente da casa: ele não faz todo o serviço, mas decide o que vem primeiro, o que pode esperar e o que precisa mudar.

    Essas habilidades estão muito ligadas à parte da frente do cérebro, chamada córtex pré-frontal, que fica logo atrás da testa. É o que descreve a pesquisadora Adele Diamond numa revisão muito citada sobre funções executivas.

    Funções executivas x funções cognitivas: qual a diferença?

    "Funções cognitivas" é o nome geral para tudo o que a mente faz: lembrar, falar, prestar atenção, perceber o ambiente e raciocinar. As funções executivas são uma parte desse conjunto, a que coordena as demais. Elas ajudam você a cumprir um objetivo, como passar no banco, na farmácia e na feira na mesma manhã sem se perder no roteiro.

    Quais são as funções executivas?

    Se você pesquisar, vai encontrar listas com 5, 7 ou mais funções executivas. Não existe uma lista oficial com esse número: cada autor organiza de um jeito. O modelo mais usado na pesquisa, proposto por Miyake e colegas em 2000 e retomado por Diamond em 2013, parte de três funções centrais. Delas dependem habilidades mais complexas, como planejar, raciocinar e resolver problemas.

    Controle inibitório

    Controle inibitório é a capacidade de segurar um impulso ou ignorar uma distração para fazer o que você escolheu. É ele que ajuda você a não responder no calor de uma discussão de família, a esperar a sua vez de falar ou a recusar o segundo pedaço de bolo.

    Ele também participa da atenção. Manter o foco na conversa com uma amiga enquanto o celular vibra em cima da mesa é trabalho do controle inibitório.

    Memória de trabalho

    Memória de trabalho é a capacidade de manter uma informação "na cabeça" por alguns segundos e usá-la. Você a usa quando guarda o número que alguém ditou enquanto digita no celular. Ou quando soma de cabeça o valor das compras no mercado para ver se o dinheiro dá.

    Ela é diferente da lembrança de fatos e nomes de muito tempo atrás. Se a sua dúvida é sobre esse outro tipo de falha, vale ler sobre quando o esquecimento merece atenção.

    Flexibilidade cognitiva

    Flexibilidade cognitiva é a capacidade de mudar de plano e ver um problema por outro ângulo. Ela entra em cena quando o caminho de sempre está fechado por uma obra e você precisa achar outro.

    Também é ela que ajuda você a se adaptar a uma regra nova, como quando o banco muda o aplicativo e os botões saem do lugar.

    Planejamento e organização (e outras que dependem das três)

    Planejamento e organização se apoiam nas três funções centrais. Planejar uma viagem, por exemplo, pede guardar várias informações ao mesmo tempo, deixar de lado o que não cabe no orçamento e ajustar o roteiro quando algo muda.

    O mesmo vale para separar os remédios da semana, preparar uma receita com muitas etapas ou resolver um problema com o plano de saúde. O raciocínio e a resolução de problemas fazem parte desse mesmo grupo.

    Funções executivas no dia a dia depois dos 50

    Na internet, quase tudo sobre o tema fala de crianças, escola e TDAH, mas as funções executivas trabalham a vida inteira. Veja algumas situações em que elas aparecem depois dos 50:

    • Pagar contas e boletos em dia, conferindo valores e datas de vencimento.
    • Manter a agenda de consultas e exames sem marcar duas coisas no mesmo horário.
    • Dirigir no trânsito do Recife, atento ao semáforo, às motos e ao GPS ao mesmo tempo.
    • Cozinhar para a família e fazer o arroz, a carne e a salada ficarem prontos juntos.
    • Acompanhar uma conversa em grupo sem perder o fio quando várias pessoas falam.
    • Aprender a usar um celular novo, o aplicativo do banco ou uma videochamada.
    • Voltar a estudar, fazer um curso ou começar um idioma.
    • Cuidar dos netos, dividindo a atenção entre a brincadeira, o lanche e a hora do banho.

    Em todas essas situações, você planeja, segura distrações, guarda informações por alguns instantes e ajusta o plano. Ou seja: usa as funções executivas o tempo todo, mesmo sem perceber.

    O que muda nas funções executivas com a idade

    Com o envelhecimento normal, algumas funções executivas ficam mais lentas ou passam a exigir mais esforço. Segundo uma revisão sobre o envelhecimento cognitivo normal, a flexibilidade mental tende a diminuir, sobretudo depois dos 70 anos. Tarefas que pedem dividir a atenção entre várias coisas também ficam mais difíceis. Por outro lado, o vocabulário, os conhecimentos acumulados e o raciocínio sobre assuntos conhecidos tendem a se manter.

    A mesma revisão destaca que há grande diferença entre uma pessoa e outra. Duas pessoas de 65 anos podem ter desempenhos bem diferentes nas mesmas tarefas.

    Por isso, vale guardar uma ideia: "mais devagar" não é o mesmo que "perder". Talvez você precise de alguns segundos a mais para decidir um caminho ou prefira fazer uma coisa de cada vez. Isso faz parte do envelhecimento e, em geral, convive bem com uma vida ativa e independente.

    Alguns fatores podem dificultar essas habilidades no dia a dia. Segundo a revisão de Adele Diamond, as funções executivas estão entre as primeiras a sofrer com estresse, tristeza, solidão, falta de sono e pouco condicionamento físico. Depois dos 50, vale prestar atenção a:

    Como exercitar as funções executivas

    Muita gente quer saber como treinar ou como estimular as funções executivas na vida adulta. A resposta honesta é que a ciência ainda está aprendendo.

    O que a ciência diz sobre treino cognitivo

    O estudo ACTIVE sorteou 2.832 idosos dos Estados Unidos para diferentes treinos e os acompanhou por dez anos. Os participantes fizeram treinos de memória, de raciocínio ou de velocidade de processamento, que é a rapidez para captar uma informação e responder a ela.

    Dez anos depois, quem treinou raciocínio e velocidade ainda tinha melhor desempenho nas habilidades treinadas. Os participantes dos treinos também relataram menos dificuldade nas atividades do dia a dia do que o grupo controle. Já o treino de memória não manteve o efeito sobre a memória.

    Ao mesmo tempo, uma revisão Cochrane de 2020, que reuniu estudos de treino cognitivo no computador em pessoas saudáveis, considerou a evidência de baixa qualidade. Os benefícios encontrados foram pequenos, e não está claro se fazem diferença real na vida das pessoas. Na mesma linha, a diretriz da Organização Mundial da Saúde de 2019 diz que o treino cognitivo pode ser oferecido a idosos com cognição normal ou com comprometimento leve. É uma recomendação condicional, baseada em evidência de qualidade muito baixa a baixa.

    O estudo finlandês FINGER seguiu outro caminho. Ele combinou alimentação, exercício físico, treino cognitivo e controle de fatores de risco vasculares, como a pressão alta. Em idosos com maior risco, essa combinação ajudou a manter ou melhorar a cognição, em comparação com o grupo controle.

    O recado para você: a pesquisa sugere uma combinação de mente ativa, corpo ativo e convívio. Não existe um exercício mágico isolado.

    Ideias para o dia a dia

    Experimente incluir na rotina atividades que peçam planejamento, foco e alguma adaptação:

    • Aprenda algo novo e um pouco difícil, como um idioma, um instrumento ou um ritmo de dança.
    • Jogue com outras pessoas jogos de estratégia, como xadrez, dominó ou baralho.
    • Planeje de verdade uma viagem ou o almoço de família: convidados, compras, horários e quem leva o quê.
    • Cozinhe uma receita nova seguindo as etapas na ordem.
    • Mude a rotina de vez em quando: volte para casa por outro caminho ou use a mão não dominante numa tarefa simples, como mexer o café.
    • Faça uma coisa de cada vez, sem tentar resolver tudo ao mesmo tempo.
    • Reserve um tempo para a atenção sustentada, como ler um livro ou ouvir um disco inteiro com calma.

    O mais importante é que a atividade seja interessante para você e traga algum desafio. Se ficar fácil demais, aumente um pouco a dificuldade.

    O que sustenta tudo isso

    As funções executivas não dependem só de atividades para a mente. Atividade física, sono de qualidade e convívio social fazem parte da mesma conta. O mesmo vale para cuidar da audição, da visão, da pressão arterial e da depressão.

    O relatório de 2024 da Comissão Lancet sobre demência listou 14 fatores de risco modificáveis. Segundo a estimativa populacional da Comissão, cerca de 45% dos casos de demência estão ligados a esses fatores e poderiam ser prevenidos ou adiados, em teoria. É uma estimativa para a população como um todo, e não uma promessa para cada pessoa. O relatório reforça que vale ser ativo cognitivamente, fisicamente e socialmente na meia-idade e depois dela.

    Procure um médico se...

    Algumas mudanças merecem avaliação. Procure um médico se:

    • você (ou seu pai ou sua mãe) passou a ter dificuldade nova para organizar contas, remédios ou compromissos que antes fazia bem;
    • tomou decisões arriscadas ou fora do seu jeito, como gastos inesperados ou golpes financeiros em que antes não cairia;
    • tem dificuldade nova para seguir uma receita ou uma tarefa com várias etapas;
    • notou mudança de personalidade, impulsividade ou apatia, que é a falta de interesse e de iniciativa para coisas de que gostava;
    • a dificuldade veio junto com esquecimento frequente, tristeza persistente ou sono ruim. Nesse caso, leia também sobre o que é esquecimento normal e quando se preocupar.

    Urgência: se a confusão começou de repente, junto com alteração na fala, fraqueza em um lado do corpo ou dor de cabeça forte, ligue imediatamente para o 192 (SAMU). Esses podem ser sinais de alerta de AVC.

    Um clínico geral pode começar essa avaliação e, se necessário, encaminhar a um neurologista, geriatra ou psiquiatra, como recomenda a Academia Brasileira de Neurologia. Quando necessário, o médico pede uma avaliação neuropsicológica, que examina em detalhe a memória, a atenção e as funções executivas.

    Onde a Métis entra

    A Métis Academia da Mente é um espaço de estímulo cognitivo para adultos nas Graças, em Recife, criado por neurologistas. O encontro é semanal, dura 2h30 e passa por um circuito de quatro salas: Linguagem, Memória, Funções Executivas e Contemplação, em grupos de até 6 pessoas. Na Sala das Funções Executivas, as atividades trabalham atenção, planejamento e resolução de problemas, junto com o convívio em grupo. É estímulo cognitivo, não tratamento, e não substitui a avaliação médica. Você pode conhecer como funciona o circuito e o treino cognitivo nas Graças, em Recife. Se quiser ver de perto, venha para uma aula experimental gratuita.

    Perguntas frequentes

    Quais são as principais funções executivas?

    Pelo modelo mais usado na pesquisa, são três: controle inibitório (segurar impulsos e distrações), memória de trabalho (manter e usar uma informação por alguns segundos) e flexibilidade cognitiva (mudar de estratégia). Planejamento, raciocínio e resolução de problemas se apoiam nelas.

    Qual a diferença entre funções executivas e funções cognitivas?

    Funções cognitivas é o nome geral para tudo o que a mente faz: memória, linguagem, atenção, percepção e raciocínio. As funções executivas são uma parte delas: as que organizam e controlam as outras para você atingir um objetivo.

    As funções executivas pioram com a idade?

    Algumas mudam, como a velocidade para alternar tarefas e lidar com várias informações ao mesmo tempo. Outras, como o raciocínio sobre assuntos conhecidos, tendem a se manter. Há muita diferença entre as pessoas. Mudança grande ou rápida merece avaliação médica.

    Dá para exercitar as funções executivas em casa?

    Sim. Atividades novas e desafiadoras ajudam a usar essas habilidades, como aprender um idioma ou instrumento, jogos de estratégia e planejar uma viagem. Atividade física, sono e convívio também contam. A ciência ainda estuda quanto disso se transfere para o dia a dia.

    Funções executivas são assunto só de criança e TDAH?

    Não. O tema aparece muito ligado a crianças e ao TDAH, mas funções executivas são usadas a vida inteira: pagar contas, seguir uma receita, dirigir, conversar em grupo. Dificuldades novas em adultos devem ser avaliadas por um médico.

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